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Constatamos neste evangelho, que João, estando com Maria ao pé da cruz, ao escutar esta exclamação de Jesus, percebeu que algo extraordinário estava acontecendo... uma dimensão grande se abria para todo o povo de Deus, para todos os homens, para toda humanidade.
Como continua o evangelho, dessa hora em diante o discípulo levou Maria para sua casa.
No Novo Testamento não há o relato de um só Pentecostes, mas dois. Existe um Pentecostes lucano que é o descrito nos Atos dos Apóstolos, e existe um Pentecostes joanino que é o descrito em João 20,22, quando Jesus soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo.
Raniero Cantalamessa em seu livro “Maria, um espelho para a Igreja”, nos fala que a Igreja desde a antiguidade tem consciência de um duplo Pentecostes ou uma maneira dupla de apresentar uma efusão escatológica do Espírito. A exegese moderna já reconheceu o Pentecostes joanino iniciado já no Calvário, no momento da morte de Cristo, onde inicia sua glorificação. Quando o evangelista diz que Jesus, inclinando a cabeça entregou o espírito ( Jo 19,30), com isso ele quer dizer duas coisas, uma natural e histórica e outra mística: que expirou, e que derramou o Espírito. A água que sai do lado transpassado de Jesus é vista por João como o cumprimento da promessa sobre os rios de água viva que iriam jorrar do seu seio, e como sinal do Espírito que iriam receber os que nele acreditassem ( cf.Jo7,39). O que foi a pomba no batismo de Jesus (cf. Jo 1,32), é agora a água neste batismo da Igreja: um símbolo visível da realidade invisível do Espírito. Temos uma confirmação explicita de tudo isso dada pelo próprio evangelista quando, certamente fazendo referência a este momento, fala das três coisas que dão testemunho em favor de Jesus: o Espírito, a água e o sangue (cf.Jo 5,8).
Quem estava debaixo da cruz para receber este sopro e suas primícias? Estava Maria, com algumas mulheres e João. São eles “os que nele acreditam” que assistem ao cumprimento da promessa e recebem o Espírito. Este é o Espírito que segundo João, Jesus dá aos discípulos na cruz e na noite de Páscoa. O Espírito que é a própria vida de Jesus, “Espírito de Verdade” quem faz conhecer Jesus (cf.Jo16,13), que assegura a sua permanência em nós e a nossa nele (cf.1Jo 4,13), Espírito que irá morar no coração dos discípulos (cf. Jo 14,17). Este é o Espírito do qual Maria recebeu as primícias, estando perto da cruz.
Depois de ter confiado Maria a João e João a Maria – observa o evangelista – viu que “tudo estava consumado” (cf. Jo 19,28). Este cumprimento de toda a sua obra é o nascimento da Igreja, representada por Maria enquanto mãe, e por João enquanto crente. “Podemos dizer que a cena descrita em João 19,25-27 é a cena do nascimento da Igreja na pessoa de Maria e do discípulo amado...Jesus termina a sua obra indicando que sua mãe é de agora em diante a “Mulher”, a Filha de Sião escatológica da qual falavam os profetas. Jesus na cruz manifestou seu amor supremo quando, na pessoa de sua Mãe e do discípulo, constituiu o novo povo de Deus e lhe comunicou o dom do Espírito”, como explica tão bem Cantalamessa em sua reflexão no livro, sobre esta passagem bíblica.
Maria é anunciada no Gênesis, esmagando a cabeça da serpente; surge triunfal, no Apocalipse, vestida de Sol, coroada de estrelas, a Lua sob os pés. Nos evangelhos, vemo-la acolhendo o anúncio do Gabriel, santificando a família de Elizabeth e Zacarias, oferecendo Jesus ao Pai, procurando-o em Jerusalém, servindo-o por trinta anos em Nazaré, acompanhando-o pelas estradas da Palestina até o Calvário, onde nos recebe por filhos, aguardando-o ressuscitado e, depois da ascensão, rezando com os apóstolos e discípulos esperando a vinda do Espírito Santo.
Nas horas mais dramáticas do mundo e da Igreja Ela se faz presente em pessoa, como em Lourdes, Fátima, Mediugórie: são cuidados extremosos de Mãe com seus filhos, ainda que ingratos, irresponsáveis. A tentação original, “sereis como deuses”, empurra os homens a todas as escravidões, violências e depravações, da alma e do corpo. Em plena cultura da morte, Deus manda sua Mãe para convencer os filhos a “fazer tudo aquilo que Ele lhes disser”. Ela precisa de Apóstolos para preparar com seu triunfo, a vitória final de Jesus.
Para este ano de 2010 vamos orar a simples e breve oração de nossa contemporânea irmã Teresa de Calcutá: “Maria, minha amadíssima Mãe, dai-me o vosso coração tão belo, tão puro, tão imaculado, tão cheio de amor e humildade, de modo que eu possa receber Jesus como vós o fizestes e ir solícita, oferecendo-o a todos”.
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